Gelcoat – parte 1 14


Poucas pessoas podem imaginar que, por trás do brilho do acabamento no gelcoat dos barcos, uma infinidade de variáveis esconde um processo cheio de truques e armadilhas que só alguns construtores conhecem.  O gelcoat é a camada mais externa do casco de um barco, geralmente branca, mas pode ser pigmentada em qualquer cor. Aplicada em primeiro lugar dentro do molde, antes das laminações das camadas de fibra, a espessura média dessa camada é de, aproximadamente, 0,6 milímetros. Sendo tão fina, não dá margem para erros na sua formulação ou aplicação.

Construtores experientes que geralmente produzem laminados de fibra de vidro de boa qualidade, podem listar uma série de problemas com gelcoat e com boas razões. O gelcoat é uma mistura de resina poliéster com uma série de cargas minerais e pigmentos. Em sua utilização, são muito sensíveis a qualquer tipo de variação, podendo produzir incríveis surpresas após a desmoldagem das peças. Além da proporção de catalisador, outra variável também difícil de controlar é a espessura do filme de gelcoat. Se aplicado muito grosso, várias rachaduras poderão aparecer em muito pouco tempo. Se aplicado muito fino, provavelmente haverá uma série de defeitos de enrugamento a serem corrigidos após a desmoldagem do casco e o construtor irá gastar horas e mais horas reparando, repintando e polindo a peça.

Geralmente, os construtores consideram a aplicação de gelcoat muito mais delicada que a laminação, porque a maior parte dos fabricantes desse tipo de material não sabe exatamente o que misturar, a maior parte dos vendedores não sabe o que diz e a maior parte dos gelcoteadores não sabe o que faz. Pode parecer engraçado, mas experimente passar duas horas ao lado do gelcoteador de uma fábrica que produza barcos, ou mesmo qualquer outra peça de fibra de vidro. Você ficará apavorado com o número de problemas que ocorrem em um pequeno espaço de tempo. Problemas na instalação, na rede de ar comprimido, na pistola, nos filtros, no molde, na cera, no solvente, no catalisador e mesmo na qualidade do gelcoat a ser pistolado.

Por outro lado, se um estaleiro consegue fabricar peças acabadas em gelcoat de uma forma eficiente, é muito provável que toda sua linha de produção esteja sob controle. Antes de mais nada, é bom informar que não existe uma única formulação para fabricação de gelcoat. Se o construtor iniciante fizer uma enquete com vários fabricantes desse material encontrará variações expressivas na proporção de quase todos os componentes. Entretanto, uma coisa há em comum: todos são feitos com base em resina poliéster, embora nem todas estas resinas sejam recomendadas para esse trabalho. Algumas delas possuem baixa resistência à absorção de água, o que deve ser evitado no gelcoat. Outras são muito rígidas ou apresentam problemas no ajuste de pigmentação. Mesmo utilizando resinas isoftálicas, ao invés das ortoftálicas de uso geral, o alongamento dessas resinas não consegue ultrapassar a 2%. Então, em alguns casos, é necessário preparar uma mistura com resinas flexíveis, que têm o inconveniente de aumentar a absorção de água, podendo iniciar um processo de formação de bolhas. A melhor composição fica mesmo com uma mistura de resina isoftálica+NPG (neo-pentil-glicol).

Outro ponto importante na formulação do gelcoat é a quantidade de cargas que cada um dos fabricantes coloca. É bom esclarecer que não há nada errado em se colocar cargas no gelcoat, embora seja este o fator primordial para redução de custos por parte do fabricante do material. Se algum dia, alguém, tentando vender gelcoat, disser que sua formulação não tem cargas, eu sugiro fazer duas coisas. Primeiro não acredite; depois, não compre. Um balanço correto dessas cargas é fundamental para diminuir a taxa de contração da resina poliéster. Sem essas cargas, a chance de ter problemas de impressão da fibra na parte externa do laminado (print thru) e desmoldagens precoces é grande. As cargas mais utilizadas nas formulações são talco industrial, carbonato de cálcio e dióxido de titânio. Como regra geral, todas as formulações levam ainda, em média, de 2% a 3 % de agente tixotrópico (Aerosil® ou Cab-O-Sil®), que é importante para evitar o escorrimento do gelcoat quando aplicado em superfícies verticais.

Outro ingrediente importante é o filtro contra raios ultravioleta. Geralmente, eles são incorporados logo no processo de mistura do pigmento em uma matriz de resina não reativa. Esses produtos são indispensáveis para evitar que os raios UV ataquem a camada de gelcoat e a superfície do barco comece a descolorir ou amarelar. Outro detalhe é que estes filtros reagem com o tempo com os raios UV, transformando-se em outros subprodutos e perdem seu potencial de filtragem em 1 ou 2 anos. Esta degradação da superfície do gelcoat que reage com os raios UV pode ser notada quando passamos a mão sobre a superfície do costado e sentimos uma espécie de “empoeiramento” de cal.

No que se refere a custo/qualidade, existe uma infinidade de formulações que podem ser desenvolvidas para cada tipo de aplicação de gelcoat. Assim, se o construtor pretende conseguir um acabamento “top quality” em suas peças, deve instruir corretamente o fabricante do gelcoat sobre seu processo de aplicação, qualidade do molde e tipo de desmoldante ou cera. Fabricantes de gelcoat não fazem mágicas. Se você não está disposto a pagar o preço de matérias-primas de primeira qualidade, obviamente estará comprando algo de segunda categoria.

Uma aplicação correta de gelcoat requer uma técnica que, infelizmente, não pode ser ensinada através de simples instruções teóricas do fabricante desse material. Ela deve ser desenvolvida com a prática. Um operador de gelcoat deve ser treinado para reconhecer visualmente a espessura e viscosidade do material, independente do tipo de sistema de aplicação que o estaleiro possua.

Para grandes volumes de produção, é utilizado um sistema de spray, onde o gelcoat fica armazenado junto com o acelerador em um recipiente (geralmente 20 litros) e o catalisador em outro. O gelcoat é pistolado e através de seu fluxo o catalisador é misturado na cabeça da pistola. As duas precauções que devem ser tomadas com este sistema é que todo o equipamento deve ser mantido completamente limpo, e a proporção de catalisação deve ser permanentemente ajustada dentro dos limites recomendados pelos fabricantes (1% a 2%).

Para quantidades de produção modestas, existem pistolas de caneco invertido com 1 litropara colocação de gelcoat já catalisado, e se adaptam bem na fabricação de pequenas peças. A utilização de rolos ou trinchas para aplicação de gelcoat pode ser feita, mas necessita de grande prática para ajustar gel time e espessuras. A maior desvantagem desse sistema é a falta de uniformidade, e você só vai descobrir o resultado após desmoldar a peça.


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14 thoughts on “Gelcoat – parte 1

  • jnasseh

    Ola Adenilson. A compra de gelcoat ou de resinas depende do volume. Se você tem um consumo baixo (menor que 2-3 toneladas) então deve procurar um revendedor ou distribuidor autorizado de um fabricante.

  • Francine

    Boa tarde Jorge,

    estou entrando em contato porque fiquei muito interessada por seus livros.
    Sou coordenadora de um projeto de qualificação de mão de obra para o setor náutico na Grande Florianópolis e estou em fase de elaboração do material didático, e foi assim que cheguei ao seu Manual de Construção de Barcos. Sou leiga e estou com dificuldades em conseguir material referencial para as partes mais específicas, tais como interiores e as instalações elétricas, etc.
    Os estaleiros em questão fabricam barcos de luxo, tais como lanchas e yachts. A nossa qualificação profissional teórica está prevista para acontecer em 45 dias, ou seja, vai funcionar mais como um curso básico preparatório para a prática.
    Fiquei muito interessada pelo Manual e também pelo livro de Laminação, mas gostaria de saber se, na sua opinião esse material, esse material atende nossa necessidade ou se você teria sugestões.
    Desde já, agradeço a atenção.

    Att,
    Francine

    • Jorge Nasseh

      Francine

      Obrigado pelo comentário. Achei muito interessante o projeto de qualificacao de mao de obra que voce gerencia em Florianopolis. Acho que os meus 3 livros serao muito bem usados no seu programa. Cada um deles tem um conteudo diferente que voce pode ver atraves do site http://www.manualdeconstrucaodebarcos.com.br/Site >> baixando o pdf do livro (sumario).

      O livro MCB eh bem amplo e cobre todos os itens da construcao desde o projeto, ferramentas, construcao dos moldes, casco e os sistemas de bordo. Tem tambem partes sobre interiores, manutencao e reparo. Os outros dois MACC (capa vermelho) eh mais dirigido a parte de construcao avancada utilizando os processos de infusao e vacuum bag. Tem tambem o processos de strip planking que se adapta muito bem para construcoes mais simples. O ultimo livro TPLC (capa preta) cobre a parte de laminacao manual em fibra de vidro e adiciona um case sobre a construcao de um barco a vela pelo processo powerflex (chapas pre-fabricadas em fibra de vidro)

      Francine, por fvor me passe mais infos sobre o tipo de alunos que voce tem e qual a grade do seu programa.

      Um abraco

      Jorge Nasseh

  • nivaldo ferreira

    Boa tarde, estou fabricando caixas de som profissional em madeira compensado naval, vi um comentario no you tube que as caixas de empresas profissionais como a jbl, atack,skp dentre outras eles utilizam o gel coat sobre a madeira, ja percebi que a pintura e acabamento delas é otimo,fica uma camada bem dura e que não risca facilmente, se realmente for isto me ajudem por favor a comprar o gel certo, componentes certos, e qual tinta devo usar? a cor é preto fosco. Forte abraço.

    • Jorge Nasseh Autor do post

      Oziel,

      Acho que você não tem que se preocupar se o barco for bem construído e o gelcoat de boa qualidade. Já tive 3 barcos com o costado preto e nunca tive problemas. A manutenção é a mesma de um casco de outra cor.

    • Manual de Construção de Barcos

      João, Identificamos que você já fez o pedido do Manual de Construção de Barcos em nossa loja em nome de Monica.
      Verifique seu email e forneça os dados necessários.

      Qualquer dúvida, retorne o contato.

  • ROBSON SALGADO

    ESTOU REFORMANDO UM CASCO DE UMA SUPER 8 JA APLIQUEI A FIBRA DE VIDRO, MAS NÃO SEI COMO PREPARAR E COMO APLICAR O GEL COAT VCS PODERIA ME DAR UM ORIENTAÇÃO

    • Jorge Nasseh Autor do post

      Robson,

      A melhor opcao é ler o livro Manual de Construcao de Barcos no capitulo referente a Gelcoat.

      Att

  • Eduardo Marques

    Prezados, gostei bastante das informações passada na Parte- 1.
    Eu que pretendo adquirir o gelcoat, pois pretendo fabricar aeromodelos de fibra e nas minhas pesquisas, percebi a qualidade no acabamento das peças que levavam o gelcoat.

    Percebo agora o quanto é delicado se trabalhar com esse produto, mas, pretendo experimentar.

  • Daniel

    Tenho muito enteresse por esta área de reforma de barcos e lanchas, quero começar me especializando com um curso ou pondo a mão na massa em minha embarcação mesmo, ela esta pintada em PU queria pintar ela em gel é possível? Ou uma vez pintada em PU já era? Para laminar um local tipo um piso fino do barco que esta cedendo que tem placas de ante derrapante tem que lixar até tirar toda a placa? Duvidas assim que gostaria de tirar. Como posso alcançar conhecimento para realizar este tipo de trabalho?

    • Jorge Nasseh Autor do post

      Daniel,

      Se o casco está pintado com tinta PU você, infelizmente, não conseguirá repintá-lo com gelcoat. Quanto a outra pergunta, normalmente pisos de barcos são laminados em sistema sandwich, logo, deve ter alguma coisa no meio (core). Para que alcance o conhecimento almejado, recomendo minhas literaturas. No seu caso creio que o livro “Manual de Construção de Barcos” e também o “Técnica e Prática de Laminação em Composites” poderão ser de grande ajuda para você. Caso tenha interesse você pode comprá-los através do link http://manualdeconstrucaodebarcos.com.br/?page_id=19.

      Espero ter ajudado.

      Att,